TESTE CAMPO DE PAPOULAS


As mãos padecidas oscilavam ao menor sinal de esforço e as pernas mal eram capazes de sustentar o minguado peso de seu corpo. Sua boca estava ressequida, o gosto de sangue ainda recente em seus lábios.

A visão do campo de papoulas vermelhas se tornara uma memória distante e sem vida. No início, ao fechar os olhos, poderia sentir a leve brisa de verão e o roçar das pétalas em sua pele. Caso se esforçasse o suficiente, ouviria o farfalhar das folhas e, com um pouco de sorte, apreciaria o pôr do sol e todas as suas cores cheias de vida.

Vida. Seu estômago roncou. Era especialmente difícil tentar se concentrar em boas lembranças sentindo tamanha fome. Além disso, sua mente já não recordava de muito mais. Repetia, diariamente, a si mesmo, como um mantra: meu nome é Osher Cohen, meus pais são Aharon e Elisheva, tenho 12 anos. Ou seria 13? Não tinha certeza.

Sentiu um aperto na barriga. Estendeu o braço direito em direção ao vão da parte inferior da estrutura de madeira onde dormia e tateou até alcançar o pedaço de pão que roubara do lixo mais cedo no mesmo dia. Ao levá-lo à boca, sentiu o forte ranço de bolor que havia se impregnado na superfície e, tão logo, afastou a náusea com esforço.

Lembrou-se, vagamente, da rua onde morava e percorreu, mentalmente, o trajeto que fazia para ir à escola. Passou pela padaria na esquina e atravessou mais alguns quarteirões enquanto contava o número de passos. Tentou, inutilmente, evocar o cheiro dos pães e doces que costumava encher toda a rua, afim de escapar, ainda que momentaneamente, da realidade que lhe aprisionava.

Ouviu o apito familiar soar estridente.

 Todos em pé! – bradou uma voz masculina cuja silhueta inabalável estava em frente à porta do galpão.

Osher rapidamente se levantou, mesmo com a súbita sensação de estar prestes a desabar no chão. Com dificuldade, lembrou a si mesmo do que acontecia com aqueles que não permaneciam em pé.

Desviou quando um de seus colegas, acidentalmente, caiu sobre o sapato do homem de uniforme. Cerrou os olhos tão forte quanto era capaz e esforçou-se para não escutar os golpes abafados desferidos contra o corpo que, naquele momento, já não possuía mais vida. As palavras "Judeu imundo" pairavam sobre sua mente enquanto o menino continha as poucas lágrimas que lhe restavam.

Manteve-se ereto, na medida do possível, e acompanhou o grupo, como fora ordenado. A ideia de um banho lhe parecia demasiadamente humana, o que não soava razoável. Osher tinha dificuldades em manter a esperança de que as coisas pudessem, de alguma forma, melhorar. Porém, a crença de que, finalmente, haviam notado o erro cometido ainda habitava em seu coração.

Antes que tudo ficasse escuro, ele pôde jurar que sentiu o cheiro das papoulas.

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